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sábado, 29 de março de 2014

Las Ventas em uma Foto com Auxílio do Médio Oriente



 

Texto e fotografia: Pedro Correia

 

O dia 23 de Março de 2014 marcou a abertura daquela que é a praça de toiros mais importante do mundo. A monumental Praça de Toiros de Las Ventas em Madrid, abriu as suas portas para acolher uma novilhada. Em foto-reportagem à praça de toiros e à sua actividade, acedi à barreira da praça para disparar sobre o que se ia passar na arena.

 

 

Dois toiros corridos, chega ao meu lado um individuo de máquina fotográfica Canon em punho. Detinha uma objectiva fish eye, em inglês perguntou-me se gostaria de partilhar a lente. Prontamente aceitei a proposta e a experiencia tornou-se encantadora. Em meia dúzia de disparos tornou-se uma experiencia encantadora em abraçar uma praça como a de Las Ventas no interior de uma fotografia. Perguntei de onde era, e rapidamente respondeu-me: Kuwait.

 

 

Embora não ficasse espantado por ver mais um turista dentro da praça a assistir a uma corrida, ou não fosse a tauromaquia um dos aspectos que mais diferencia Espanha em termos culturais das demais nações, confesso que fiquei mais uma vez admirado pela diversidade de pessoas das mais variadas nacionalidades que procura conhecer a corrida de toiros. Esta é uma realidade que reforça o impacto que a festa brava tem onde quer que ela exista, desmistificando demagogias baratas que tentam denegrir a imagem deste aspecto cultural de determinados países. Para além do mais, fiquei agradecido pela simpatia do turista do médio oriente, cujo seu nome é Humod, e pela experiência que me proporcionou, e que agora partilho com os visitantes do blog Toiros & Açores.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Pelos Sonhos do Toiro Bravo: A Importância do Fórum Mundial da Cultura Taurina




 

Texto e fotografia: Pedro Correia

 

O Fórum Mundial da Cultura Taurina é um evento de grande magnitude e importância para as culturas taurinas que desde de 2009 se organiza e realiza nos Açores. Evidentemente, o termo Mundial por si só realça a sua magnitude e importância do evento. Contudo, tenho repúdio de aparências quando não existe o mérito, e que felizmente não é que se passa neste fórum, já que ele reúne qualidades notáveis. No Fórum Mundial da Cultura Taurina gera-se um debate que dá elevada dimensão às Culturas Taurinas, e, que sensibiliza e faz questionar qualquer pessoa para a importância e problemática do tema.

 

 

É no Fórum Mundial da Cultura Taurina que se reúnem pessoas de todo o mundo, que, na sua maioria reflectem pensamentos sobre a tauromaquia. Contudo, recordo que na primeira edição do fórum ficou bem patente o significado de cultura taurina, que é transversal à própria tauromaquia e que alberga o culto do bovino com o Homem, numa grande relação entre as duas espécies evidenciada nas culturas dos mais diversos países do mundo.

 

 

Neste evento de grande dimensão, ajuda-nos a compreender e a responder a simples questões: “Quem somos?”; “Qual a nossa identidade?”. O raciocínio, o juízo e possíveis respostas, transportam o pensamento para outra dimensão, levando a mais questões ou suposições: “Porque é que os nossos ante passados faziam determinados rituais, e quais os seus fundamentos?”; “Qual a importância de os fazer?”; “Quais as consequências das suas alterações?”. Todo isto e muito mais é promovido pelas discussões do Fórum Mundial da Cultura Taurina.

 

 

Chegamos à conclusão que os nossos rituais culturais deixados pelos nossos antepassados tem explicações e transportam consigo a nossa identidade enquanto açorianos, portugueses, ibéricos, europeus ou humanos, e que só pode ser defendida e promovida por cada um de nós, mas unidos numa só força, respeitando a opinião do próximo. Simplesmente, tudo resume-se numa só palavra almejada pela humanidade ao longo dos tempos: Liberdade. É nesse sentido que, o Fórum Mundial da Cultura Taurina não se fica apenas por um nome, e torna-se um evento de grande magnitude e de grande importância, que não serve apenas para um mero evento para aficionados, e que pode ir mais além, sensibilizando a sociedade em geral para o interesse na sua cultura.

 

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Pelos Sonhos do Toiro Bravo: Os Testemunhos Taurinos Açorianos





 

Texto e fotografia: Pedro Correia

 

Decorria o ano de 2011 enquanto preparava a minha tese de mestrado intitulada Posicionamento Genético do Gado Bravo da Ilha Terceira em Relação à Raça Brava de Lide. Publicação atrás de publicação com o intuito de estudar o tema e redigir documento, analisei as fontes Cañón et al. (2007) e Cañón et al. (2008), onde deparava-me com o seguinte raciocínio que escrevi do seguinte modo na tese anteriormente mencionada:

 

“O ganadeiro que adquire ou herda uma ganadaria sente a necessidade de conservar e melhorar esse património genético e de os transmitir aos seus herdeiros.”

 

Citação em tese de mestrado: Posicionamento Genético do Gado Bravo da Ilha Terceira em Relação à Raça Brava de Lide. Página 14.

 

É realmente uma singularidade que ocorre nas ganadarias bravas e que muitas vezes são abordadas pela sociedade comum como um mérito familiar, mas que ganha enormes repercussões de natureza antropológica, zoológica, ecológica e por sua vez cultural. A título de exemplos são as conservações de importantes patrimónios zoológicos desenvolvidos a partir de famílias num período temporal secular, a sustentabilidade das culturas tauromáquicas, taurinas de um modo geral e da própria humanidade.

 

 

Nos Açores, estas passagens de testemunhos entre pais e filhos ganham especificidades peculiares devido às características da tauromaquia loca, onde muitas vezes os gostos da actividade de ganadeiro, adquirem-se a partir de gente humilde, em que muitas das vezes foram pastores de outras casas de bravo. Nos Açores a ligação entre ganadeiro e pastor ganha uma especial relevância, sendo que muitas vezes a posição do colaborador de uma ganadaria fomenta o surgimento de outra. Deste ponto de vista, Gabriel Ourique, Manuel João Rocha e João Quinteiro são exemplos evidentes de uma conexão restrita entre as duas figuras do campo bravo que são o ganadeiro e o pastor.

 

 

Constituídas as novas ganadarias a partir de indivíduos outrora pastores em outras casas de bravo insulares, os jovens ganadeiros costumam manter o gosto às duas faces, e na maioria dos casos, na sua nova ganadaria continuam a desempenhar as funções de homem da corda nas tão conhecidas touradas populares açorianas. Por sua vez, os filhos dos novos ganadeiros/ pastores, revêm-se nos pais e tal como os seus ascendentes, fazem do pastor a escola da actividade que é a ganadaria brava. São exemplos disso a casa Ezequiel Rodrigues com José Manuel Rodrigues e seu filho Rodrigo Rodrigues, na de Humberto Filipe com José Sousa, na ganadaria Gabriel Ourique através de Anselmo Ourique, em João Quinteiro com João Gaspar, que já na sua ganadaria independente à do pai, continua com a mesma saga na presença assídua do seu filho João Paulo Gaspar.

 

 

Nesta ultimas ganadarias citadas (João Quinteiro e João Gaspar - filho), surge um novo movimento, falo da independência ganadeira adquirida pelo filho na compra da extinta ganadaria de Irmãos Toste, havendo no mesmo período temporal a gerência ganadeira do pai sobre o ferro G com J no interior.

 

 

Em suma, estes processos sociológicos que ocorrem de forma banal no meio da sociedade, ganham especial relevância na influência da sustentabilidade desta cultura. A temática aqui abordada, merece uma análise cuidada pelas suas particularidades locais, quer do ponto de vista cientifico, mas principalmente pelas pessoas inerentes ao meio tauromáquico no sentido de sensibilizar sociedade em geral, classe politica e promover a investigação destes assuntos.

 

 

 

Bibliografia:

 

Cañón, J; Cortés, O; García, D; García-Atance, M. A; Tupac-Yupanqui, I; Dunner, S. (2007) Distribución de la variabilidad genética en la raza de lidia. Archivos de Zootecnia, 56 (Sup. 1): 391-396.

 

Cañón, J; Tupac-Yupanqui, I; García-Atance, M. A; Cortés, O; Garcia, D; Fernández, J; Dunner S. (2008). Genetic variation within the Lidia bovine breed. International Society for Animal Genetics, Animal Genetics, 39, 439–445 doi:10.1111/j.1365- 2052.2008.01738.x

 

Correia, P. B. C. (2012). Posicionamento genético do gado bravo da ilha Terceira em relação à Raça Brava de Lide. Angra do Heroísmo: Universidade dos Açores. IX, 85 f.. Dissertação de Mestrado. Disponivel em: https://repositorio.uac.pt/bitstream/10400.3/1543/1/DissertMestradoPedroBettencourtCardosoCorreia2012.pdf. Consulta efectuada em 17 de Março de 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Pelos Sonhos do Toiro Bravo: O Chico da Vila






Texto e fotografia: Pedro Correia

 

Decorria metade da primeira década do novo milénio quando em estágio na Casa Agrícola José Albino Fernandes conheci o Sr. Chico da Vila. Para um ignorante como eu na matéria de vivências daquela casa ganadeira, como é a de JAF, a observação da presença assídua e pontual do Sr. Chico no Mato em cada Sábado para tratar dos toiros e reunir-se com o seu grupo de amigos, fazia-me perceber facilmente da sua imensa afición ao toiro e à ganadaria da qual colaborou desde 1988.

 

 

Embora que a sua afición fosse notória, não era o aspecto que diferenciava o Sr. Chico da Vila dos restantes pastores, pois também eles nutrem especial carinho pela festa e pela Casa Agrícola José Albino Fernandes. O Sr. Chico da Vila diferenciava-se pelos seus modos correctos, pela sua simpatia e alegria. Depois de conhecer este homem, a qualquer lugar que ia e o encontrava, cumprimentava-me sempre com enorme sorriso estampado no rosto sinónimo da sua boa disposição, alegria e entusiasmo constantes.

 

 

Era frequente encontrar o Sr. Chico da Vila com o “Martins”, outro homem castiço que faz parte do grupo de amigos do conceituado ferro JAF. Infelizmente na maioria das vezes eram encontros curtos de tempo, mas felizmente eram tão alegres que são difíceis de esquecer. A cada tourada à corda de JAF que ia, caminhava na esperança de encontrar estes dois homens para “beber” a alegria dos seus rostos. Ontem recebia a noticia do seu óbito e no meio da infelicidade recordo a ultima vez que vi e falei com este homem que já deixa saudade.

 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Pelos Sonhos do Toiro Bravo – Pastores ou Mascarados




Texto e fotografia: Pedro Correia

 

Indiscutivelmente o toiro bravo é o centro da tauromaquia e por isso move milhares de pessoas em seu torno por todo o mundo. No entanto, isso apenas pode ser possível, quando existem pessoas que dedicam o seu tempo a esse belo animal. Refiro-me em particular aos homens que cuidam do gado bravo em todo o seu percurso de vida, com especial destaque para os pastores de gado bravo da Ilha Terceira, outrora chamados de mascarados, de acordo com Tavares (2002).

 

Durante o passado ano de 2012, captei este olhar de um pastor durante uma tourada à corda, com toiros da ganadaria Humberto Filipe. Embora já tenha sido postada em Toiros & Açores em Correia (2012) mas em sépia, considero esta imagem, como uma das melhores fotografias captadas por mim no ano transacto.

 

O aproveitamento de metade da cara tapada, transporta o termo de “Mascarado” a que chamavam os pastores, do passado para o presente. Por outro lado, o olhar alegre do pastor, põe a descoberto a alegria, o gosto e orgulho na sua personagem e suas vivências. Todavia, para além das satisfações vividas, está o conhecimento destes homens, que nenhum livro, escola ou academia alberga. A sabedoria, de agarrar e controlar um toiro através da corda, a sensibilidade de saber cuidar do gado no “Mato”, caminhos ou arenas, transcende qualquer pessoa que nunca tenha passado por semelhantes experiências.

 


É toda uma escola da vida, mais evidente nos pastores cuja sua vida profissional passa pelo meio agro-pecuário, que vai passando entre colegas de trabalho ou familiares. O conhecimento adquirido empiricamente pelos pastores, a meu ver pouco valorizado na nossa sociedade, merece ser partilhado, estudado na profundidade desde vários pontos de vista. Assim, técinicas, conceitos e práticas dos homens que cuidam do toiro, poderão fluir com maior facilidade entre os próprios pastores e aqueles que estão para surgir. Não menos importante, é todo o valor cultural que os pastores transportam consigo e que merece especial atenção.

 


Bibliografia:

 



 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Pelos Sonhos do Toiro Bravo - Ferrar - Um Rumo à Glória de Espécies Singulares e Magníficas









Texto e fotografia: Pedro Correia






Nos finais da década de 90, quando acedia pela primeira vez ao mundo através do ecrã de computador, a minha afición moveu-me para ver toiros por outras paragens. Uma imagem de um bezerro bravo no momento da ferra, alojada no site da conceituada Unión de Criadores de Toros de Lidia, e se não estou errado, da autoria de Carlos Núñez, despertou o meu interesse e ficou registada na memória. Quando iniciei este obi de fotografia, aproveitei para nas oportunidades de captar imagens de ferras, tentar reproduzir o mesmo momento, mas desta vez, recriado por mim.





Num disparo, uma imagem intensa, de brutalidade e poder que vale por mais de mil palavras.







Opiniões divergem quanto aos atos dolorosos efetuados sobre o toiro. O exemplo prático da ferra, em que alguns podem entender como um horror ou falta de sensibilidade de quem pratica. Outros, os que a praticam, sentem a dor, olhando a glória futura de autênticos Homens e bovinos gladiadores sobre as arenas. Uma parte de um rito que vai para além da compreensão da utilidade desta prática, enquanto tipo de identificação animal essencial nos sistemas de produção peculiares das ganadarias bravas.






Independentemente, de opiniões ou filosofias de vida, o bovino está inserido em rituais milenares, enraizados por todo o mundo (inclusive em países onde não se praticam corridas de toiros com frequência) que partem de necessidades tão básicas do Homem, como simplesmente a de se alimentar.






Influenciada pela necessidade alimentar, poderá estar a seleção da própria espécie humana, em que no ato das caçadas aos auroques selvagens (bovinos primitivos), os homens mais valentes, provavelmente seriam os preferidos pelas mulheres como parceiros, por serem considerados o “individuo mais forte”. Ou seja, uma mais-valia na defesa do individuo feminino, e por sua vez,  na contribuição para a sobrevivência da espécie.







Depois, a adaptação da vida nómada à sedentarização, o desenvolvimento da agricultura e a domesticação animal, onde o individuo masculino volta a atuar fortemente sobre o trabalho pesado de domar e selecionar os animais para fins produtivos, para dai tirar o seu alimento. Toda esta conjuntura associada à mitologia, religiões e formas de encarar a própria vida, formou uma autêntica “salada russa” para desembocar nas culturas onde o bovino está inserido, tais como jogos taurinos que deram origem à corrida de toiros atual, ou até formas de tauromaquia popular como é a tourada à corda na ilha Terceira e já espalhada por outras ilhas do arquipélago dos Açores.







Desenvolvidas as  técnicas da agricultura, cresce toda uma diversidade criada pelo Homem, como é exemplo um grande número de raças. Das raças de bovinos existentes atualmente, nenhuma delas transporta consigo o legado ancestral que tem a Brava de Lide (toiro de lide, ou toiro bravo) derivado ao confronto que se produz na corrida de toiros entre homem e bovino. O remontar às origens da humanidade entre a sorte, azar, realidade de viver ou morrer, criando arte através do toureio, é uma evolução cultural de grande magnitude e com todos os argumentos para ser defendida e definida como cultura universal e património imaterial da humanidade.







Outro aspeto não menos importante, é a criação de um animal como o toiro bravo, que transporta consigo uma carga imensa de valores, cujo seu criador “Homem” evaca-os como exemplos a seguir, mas muitas vezes não os consegue colocar em prática. A dignificação do toiro, por parte do seu criador e predador “Homem”, durante e após a sua vida, é um ato real e culto total ao animal que na cadeia alimentar humana é presa. Destaque para os indultos, onde se oferece a vida a uma presa, ato misericordioso que jamais qualquer outro grande predador faria na natureza.







Esta imagem, o momento da colocação dos ferros durante a faina de campo, a ferra, é portanto, um ponto crucial de toda esta história, ou História, como preferirem. É a partir deste ponto que esta rês ganhou uma identidade, para que um dia seja recordada na sociedade humana como um toiro que encheu a memória e coração de milhares de pessoas. Por tudo isto, a ferra é um ponto no rumo à glória de duas espécies tão magníficas e singulares, como o Homem e o Bovino na figura do Toiro Bravo de Lide.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Pelos Sonhos do Toiro – Poder Sereno




 

Texto e fotografia: Pedro Correia

 

Já coloquei esta fotografia no blog à disposição dos visitantes de Toiros & Açores e teço por ela um valor simbólico, de acordo com algo que já escrevi neste espaço da internet referente à mesma imagem. Acontece que, escrevemos, publicamos, meses depois voltamos a ler e no fim de contas dizemos: - Escrevi isto desta forma? Será possível? Realmente como já aqui escrevi em outra oportunidade, não me considero grande escritor e por ler o artigo que falo, confesso que fiquei desiludido e por isso tentei reescrevê-lo. Também, no meio de uma conversa sobre toiros com o meu colega e amigo Diogo Coelho, este perguntou-me:

- Mas tu não comentas as fotografias? E em seguida respondi prontamente:

- Já o fiz e não o tenho feito ultimamente, mas não é mal pensado voltar a fazê-lo!

 

Por isso aqui cá está a ocasião, a partir de hoje lanço outro espaço no blog designado “Pelos Sonhos do Toiro”, destinado a artigos em que a própria fotografia é comentada, pela sua imagem, pelo momento, ou por aquilo que o autor enxerga como transmissão de uma mensagem através da fotografia.

 

Aqui vai então o artigo que reescrevi:

 

Durante o meu processo de formação académica, sempre que possível dediquei-me ao estudo do toiro bravo. Já antes da licenciatura tinha realizado alguns estágios em ganadarias bravas na ilha Terceira e curiosamente, a tendência foi de os efectuar nos meses em que o clima é mais agreste no interior da ilha - “O Mato”.

 

Em fase terminal da licenciatura, regressei aos campos da ganadaria de Rego Botelho, para ai efectuar o estágio final desta etapa de formação académica. Sempre com a máquina do meu lado para registar aspectos de natureza técnica da lavoura e da criação do gado bravo na nossa ilha. No entanto, sempre que podia tentava captar fotos que não fossem meros registos. Para se conseguir uma foto desse tipo, é necessário tempo e paciência para jogar com as condições que temos disponíveis enquanto fotografamos! Contudo, fotografar animais, como o gado bravo, no interior da ilha com a nebulosidade dos meses de Janeiro, Fevereiro ou Março, não se torna tarefa fácil, muito menos com uma máquina de tipo bridge, muito limitada em relação às máquinas reflex conhecidas pelo público em geral pelas máquinas de fotógrafos profissionais.

 

Num dia típico de inverno na Caldeira Guilherme Moniz, com a erva das pastagens alagada da chuva e miúda do frio devido à falta de insolação, vi este semental de idade avançada no seio de uma ponta de vacas de encaste Domecq de fina estampa. Os anos que o semental levava em cima em nada lhe retiravam a sua imponência. Depois de deixarem no chão a silagem e ração, dirigiu-se ao alimento com uma serenidade cabal, que só o toiro bravo tem, desprezando por completo a minha presença. Palavras! Para quê? Um autêntico senhor do campo bravo de vida feita, de provas dadas e um momento ideal para fotografar, em tão curto de espaço de tempo.

 

De máquina em punho e sem hesitar disparei para este senhor toiro com as pontas dos seus cornos arredondadas e o pêlo da cabeça encaracolado, características que acentuavam a idade avançada deste exemplar de ferro Jandilla. O seu olho esquerdo fechado, devido à impossibilidade de ver, possivelmente causado por uma luta com outros toiros, ou por processos de ordem patológica, ou até algum acidente de maneio, dava a este exemplar um aspecto de um velho gladiador que passa os últimos dias da sua vida num autêntico paraíso.

 

São estas as poucas palavras que posso utilizar para descrever o que se vê na fotografia e aquilo que senti por instantes, que só o nundo do toiro bravo tem a possibilidade de os criar. O momento fica aqui descrito e partilhado convosco através desta fotografia à qual lhe intitulei de Poder Sereno.

 

Fiz várias fotos deste semental da ganadaria de Rego Botelho, que pelo que soube através da internet ostentava no costado o número 126. Destaco duas fotos deste toiro, ambas já publicadas no blog Toiros & Açores. A primeira com o título de “O Velho Semental” e esta tirada a cerca de três metros deste senhor soberano da sua vacada.